E quais são os pontos negativos dessa métrica para a minha pesquisa?
Apesar de sua popularidade, o fator de impacto é alvo de críticas significativas no meio científico. Embora seja uma métrica útil para avaliar a visibilidade dos periódicos, ele não reflete necessariamente a qualidade individual dos artigos publicados, criando uma dependência excessiva de índices numéricos que podem distorcer o verdadeiro impacto da pesquisa. A seguir, vejamos com mais detalhe alguns pontos negativos.
1. Desigualdade regional
O fator de impacto reflete desigualdades regionais, favorecendo periódicos de países desenvolvidos que possuem maior visibilidade e acesso a redes de distribuição mais amplas. Periódicos de regiões como a América Latina enfrentam dificuldades para competir nesse cenário, já que muitas vezes dependem de recursos limitados e possuem menor alcance internacional. Essa desigualdade compromete a representatividade científica global, perpetuando a subvalorização de pesquisas locais e regionais [4].
2. Privilegiar quantidade sobre qualidade
A pressão para publicar em grande volume pode comprometer a originalidade e a profundidade das pesquisas [1]. Em alguns casos, essa cultura de “publicar ou perecer” leva pesquisadores a priorizarem artigos que atendam a demandas editoriais ou temas em alta no mercado científico em detrimento de trabalhos que possam representar contribuições inovadoras, mas que demandam maior tempo de preparação [4].
Segundo o 3º Boletim Anual do Observatório de Ciência, Tecnologia e Inovação 2022, publicado pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, o Brasil ocupava a 13ª posição no ranking internacional de produção científica naquele ano. Esse desempenho foi impulsionado pelo aprofundamento das pesquisas em áreas consideradas estratégicas para o país, como biodiversidade, inovação, sustentabilidade, enfrentamento da COVID-19 e outras complicações epidemiológicas, além de saúde coletiva e mental [5]. No entanto, essa priorização resultou na negligência temporária de outras áreas importantes, como as pesquisas relacionadas a doenças crônicas. O documento, ainda, identifica fortalezas e lacunas no cenário nacional, oferecendo subsídios fundamentais para a formulação de políticas públicas e parcerias estratégicas.
O relatório Panorama das Mudanças na Pesquisa no Brasil, divulgado em 2024 pela Clarivate Analytics em parceria com a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, aponta que o Brasil manteve a 13ª posição mundial em produção de artigos científicos, registrando 458.370 publicações entre 2019 e 2023 [6]. Ainda em relação à publicação de temas em alta, o Brasil tem se destacado em áreas estratégicas. Por exemplo, o país está entre as 20 nações com mais publicações entre 2019 e 2023 sobre inteligência artificial, totalizando mais de 6.000 publicações científicas registradas na base Web of Science nesse período [7].
3. Revistas predatórias e práticas antiéticas
A busca desenfreada por publicações incentivou o crescimento de revistas predatórias, que exploram a métrica sem garantir rigor científico [1, 2]. Essas revistas cobram taxas altas para a publicação de um artigo e não garantem revisões rigorosas, comprometendo a qualidade e a credibilidade das pesquisas. Além disso, práticas editoriais reprováveis, como autocitação excessiva e manipulação de índices, com frequência são empregadas para inflar artificialmente o fator de impacto de algumas revistas [1, 4].
4. Impacto desigual entre as áreas do conhecimento
O fator de impacto não é uma métrica uniforme entre áreas do conhecimento. Muitas vezes, disciplinas como ciências naturais e biomédicas são favorecidas, pois possuem alta rotatividade de citações — expressão que se refere à frequência com que as referências em artigos científicos são substituídas ou atualizadas ao longo do tempo, podendo ser devido a mudanças nos focos de pesquisa, avanços tecnológicos ou evolução do conhecimento em determinada área [7]. Por sua vez, áreas como ciências humanas e sociais têm menor representatividade e rotatividade, criando uma percepção de menor relevância científica nesses campos. Essa disparidade afeta o financiamento e a valorização de pesquisas em áreas menos citadas, mas igualmente importantes [4].
Além disso, o uso indiscriminado do fator de impacto pode levar a escolhas editoriais menos estratégicas, com foco excessivo em índices em vez de na relevância pública do periódico. Os pesquisadores podem, também, enfrentar desafios éticos e práticos ao submeter seus trabalhos para revistas que priorizam lucro sobre qualidade científica [3]. Embora o fator de impacto seja uma ferramenta valiosa, é essencial ser usado com cautela e complementado por outras métricas que avaliem a qualidade e a relevância do trabalho científico. Promover debates e mudanças no sistema de avaliação pode criar um ambiente mais justo e inclusivo para a ciência global [2].